“Scialla!” de Francesco Bruni

“Scialla”  é “a” palavra da actual geração de adolescentes italianos e apesar dos seus múltiplos usos Francesco Bruni explica em entrevista à NewEmpress que pretendeu, com este título, reforçar o tom de “comédia relaxada”.

O filme é mais do que esta definição descontraída.

Sem ceder ao facilitismo do cliché filho-descobre-pai-incógnito, o argumentista de “La prima cosa bella” aborda a importância da educação e das raízes da cultura latina, com sentido de humor apurado através das excelentes representações de Fabrizio Bentivoglio e Filippo Scicchitano.

A estreia de Francesco Bruni no papel de realizador é um primeiro passo prometedor. Aguardemos os próximos projectos.

Última nota  muito positiva para a programação do TAGV. Assim se prova que em Coimbra há público que supera as noites fustigadas pela chuva e ignora o discurso monocórdico de Hollywood.

Susana Santos Silva “Devil´s Dress”

Ter o destaque da jazz.pt não é para todos. A crítica especializada inclui o álbum do quinteto de Susana Santos Silva na lista restrita dos melhores de 2011.

Deste disco saliento a faixa que oferece o título ao trabalho: “Devil´s Dress”.

Vale a pena saborear  o diálogo inicial entre a guitarra e trompete.

Com apenas 32 anos a portuense tem um percurso sólido sustentado na licenciatura de trompete pelo ESMAE e na colaboração estreita com a Orquestra Jazz de Matosinhos desde 1998.

Da sua discografia contam-se colaborações com a European Movement Jazz Orquestra, com o trio LAMA “Oneiros” e “Motor” de André Fernandes.

Paralelo ao seu trabalho como música, Susana Santos Silva colabora com a associação Porta-Jazz, que promove iniciativas relacionadas com a música improvisada na Invicta.

O percurso da trompetista personifica o dinamismo do jazz luso que galga as fronteiras do palco para criar espaço e vencer o contexto anémico.

“A Nova Medicina” João Lobo Antunes

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O Prof João Lobo Antunes sintetiza neste livro intitulado “A Nova Medicina” a evolução, os dilemas actuais e o futuro desta “arte baseada em ciência” Osler.

Apesar das suas “curtas” 73 páginas o ensaio identifica muitos desafios concretos fugindo dos discursos redondos.

Poderia citar outros, mas saliento a referência à recertificação e à especialidade de Medicina Geral e Familiar (MGF).

Quanto à verificação das competências (tema ainda tabu entres nós) considero premonitória a conclusão do neurocirurgião : “a introdução de mecanismos de avaliação periódica será inevitável”.

No sub-capitulo “A cultura médica”
o Prémio Pessoa 2006, a propósito da fragmentação da clínica e das diferenças salariais entre especialidades, salienta que aos médicos de família “cabem funções imprescindíveis nos cuidados de primeira linha, na assistência à doença crónica e na prestação de cuidados continuados”.
Esta seria uma afirmação igual a tantas outras mas o Presidente do Instituto de Medicina Molecular acrescenta de forma objectiva: “Só uma política lúcida de emprego e de remuneração poderá corrigir as actuais carências(…)”.

A colecção da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) pretende “pensar o país” bem como “contribuir para a identificação e resolução dos problemas nacionais”.

Este ensaio é mais um excelente contributo para o desígnio expresso pela FFMS.

 

“Como tornar-se doente mental”

Título: Como tornar-se doente mental
Autor: Prof J.L. Pio de Abreu
Editora: D. Quixote

O sugestivo título “Como tornar-se doente mental” marca o tom que o Prof. Pio de Abreu imprime neste livro: análise da psicopatologia através de crítica assertiva temperada com uma boa dose de humor.

Subvertendo a lógica dos inúmeros livros de auto ajuda, este best seller (actualmente na sua 20a edição) ensina ao leitor quais os passos a tomar para atingir algumas das
mais relevantes doenças mentais.

Apesar de ser, fundamentalmente, dirigido para um público generalista este livro tem o seu lugar na biblioteca do especialista em Medicina Geral e Familiar.
A sua leitura permite uma breve revisão de alguns dos critérios da 4a versão da “Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders” (DSM IV) e levanta algumas questões pertinentes sobre, nomeadamente, a variabilidade dos designados saudáveis.
Este Prémio Città delle Rose é uma excelente ferramenta para o trabalho de qualidade em saúde mental no contexto dos Cuidados de Saúde Primários.

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“Um Método Perigoso” de David Cronenberg

Em “Um Método Perigoso” David Cronenberg aborda a génese da psicanálise através das relações entre Sigmund Freud, Carl Jung e Sabina Spielrein.

Spielrein, apesar do nome germânico era russa e vinha de uma família judaica rica.
Estas suas raízes, a par com a sua elevada cultura e patologia
contribuiriam para catalisar os laços e as fronteiras entre Jung e Freud que neste filme são encarnados, respectivamente por Michael Fassbender e Viggo Mortensen,
considerados pela crítica de prováveis candidatos a Oscar.

Desafiado pelo produtor Jeremy Thomas (é curioso este pormenor de “fita encomendada”) o realizador canadiano filma, afinal, o seu universo:
as sombras escondidas pelas máscaras conscientes.

Cronenberg, baseando-se no texto do excelente dramaturgo
Christopher Hampton (recordemos “Expiação), acrescenta profundidade ao que poderia ser apenas um filme biográfico e de época.
Sob as tensões deste triângulo notável o espectador depreende a fragilidade e firmeza de Emma Jung bem
como o fantasma das duas guerras que se avizinham, com a barbárie nazi como exemplo colectivo e individual dos instintos que permanecem ocultos pela capa do progresso.

“Do Alto da Ponte” de Arthur Miller pelo TEP

Teatro Experimental do Porto tem em cena no Auditório Municipal de Gaia a peça “Do alto da Ponte/A view from the Bridge” de Arthur Miller.

Um ano depois do excelente “A morte de um caixeiro viajante”, Gonçalo Amorim regressa com um dos textos mais marcantes do dramaturgo americano numa versão inédita em dois actos.

Miller escreveu ”Do alto da Ponte/A view from the Bridge” na sequência de uma história verídica mas que evoluiu, sob a sua pena, para uma peça que ao relatar a história trágica do estivador Eddie Carbone mergulha “na natureza do homem”.

Apesar da acção concreta se desenrolar na vida portuária de Brooklyn dos anos 50, são evidentes as leituras comparativas com a actualidade em que a tensão social paira nas ruas.

Para reforçar este toque de “revolução contemporânea ” o espectáculo inclui “Riot Van” dos Artic Monkeys e o encenador esclarece no caderno que acompanha o espectáculo que “O desafio que Arthur Miller nos coloca através da personagem de Alfieri é o de a cada momento repensar o futuro (…) esperamos que a voz de Alfieri seja o transporte de uma certa inquietação que queremos partilhar: a inquietação de um homem da lei, da justiça e da moderação que confrontado com uma realidade em plena e bruta mutação cede, alarmado, à inquietação revolucionária”.

Do excelente elenco recordo Paulo Moura Lopes (o trágico e efusivo Eddie Carbone), Jorge Mota (o Alfieiri que se limita a observar “Do alto da Ponte” ) e Maria João Pinho (excelente como Catherine:a personagem que desequilibra/equilibra? o enredo).

Para o presidente do Teatro Experimental do Porto o encenador Gonçalo Amorim é
“a minha primeira aposta dentro dos jovens criadores do teatro português”.

Com este “Do alto da Ponte” arrisco que a aposta está ganha.

Meia-noite em Paris

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A critica parece unânime em classificar este “Meia-noite em Paris” como o melhor de Allen desde “Match Point”.

Classificações à parte o facto é que, em dia de estreia, a lotação estava quase esgotada. E para mim é sempre salutar quando o cinema a sério (sem o ruído do 3D) vence a acéfala TV.

Owen Wilson está excelente no papel de Gil Pender que, no fundo, é mais uma encarnação de Allen. O espectador imediatamente reconhece (como suas?) as angustias e dilemas do argumentista que anseia por elevar a sua escrita à literatura.
Nesta longa metragem o argumento explora a armadilha recorrente da idealização de um passado de ouro como fuga para o presente cinzento.

A mestria de Woody Allen em
“Meia-noite em Paris” transparece no sentido de humor dos diálogos e na margem deixada aos actores.
Um filme a não perder.

“Stória Stória” Mayra Andrade

João Bonifácio escreveu no Ípsilon que “Storia, Storia” “é um disco de canções tão perfeitas que soa a clássico absoluto.”

Bem sei que seguir o elogio da crítica publicada é um critério arriscado mas este álbum merece mesmo a rendição do ouvinte.

Em “Stória Stória” Cabo Verde é, apenas, o ponto de partida. A voz de veludo de Mayra Andrade viaja por outras paragens e influências sem perder a matriz doce que constitui o encanto do álbum.

“1984″ em 2011?

Apesar de, admito, ser uma comparação abusiva não consigo deixar de recordar o clássico de George Orwell sempre que leio as recentes notícias sobre o caso dos registos dos telemóveis do jornalista Nuno Simas.

O Expresso acrescenta alguns dados tenebrosos à alegada espionagem. Por exemplo, a lista inclui o International Mobile Equipment Identity (IMEI) que permite saber a “marca e o modelo do aparelho” e “tem o início e o fim exactos, ao segundo de cada um dos telefonemas”.

Fica portanto a neblina sobre até que ponto “eles” podem chegar.

 

Vinícius: 90 anos

“Vinícius: 90 anos” é um duplo álbum que, mais que um “best of”, pretende ser um tributo ao poeta e intérprete.

É claro que entre as 25 faixas se incluem os inevitáveis: o mediático “Garota de Ipanema” e o belíssimo “Pela luz dos olhos teus”.

Mas o que este álbum oferece de verdadeiramente original são os depoimentos de admiradores célebres, tais como Jobim, Chico Buarque e Drummond de Andrade.

Chico refere, com humor, um lapso constrangedor passado em Coimbra para revelar o grau de distracção e auto confiança do compositor.

Talvez seja o escritor Drummond quem melhor lê Vinícius: (…) eu acredito que a poesia dele sobreviverá independente de modas e teorias porque responde a apelos e necessidades de todo o ser humano (…) a plena realização do amor era, a seu ver, a razão da vida (…)